O americano Sidney Rittenberg passou 35 anos na China
em um tempo de grandes mudanças no país, se tornando amigo pessoal de
Mao Tsé-Tung e de outros líderes revolucionários chineses que assumiram o
poder a partir de 1945. No dia em que Mao, morto em 1976, faria 120
anos, Rittenberg revela à BBC sua perspectiva única da guerra civil no
país, dos primeiros dias do comunismo e da filosofia do Grande
Timoneiro, como era chamado Mao. Leia abaixo:
Como tudo mais na China, o papel de Mao hoje em
dia é o estudo de um paradoxo. Ele é, ao mesmo tempo, mais e menos do
que o imenso cartaz que domina o centro da Praça da Paz Celestial, em
Pequim, e que não será removido de lá tão cedo.
Mais do que a foto porque Mao tem
para os chineses a estatura de um George Washington para os americanos, é
o fundador da República Popular da China, o grande unificador de seu
milenar, vasto e diversificado povo.
E menos do que a foto porque a juventude chinesa
atual, incluindo jovens membros do Partido Comunista, geralmente nada
sabem sobre o que Mao escreveu, seus triunfos e seus monstruosos erros.
O presidente Xi Jinping e sua equipe advertiram
que uma "desmaoização" da China, no estilo soviético, poderia gerar
grande confusão e o enfraquecimento do presente regime – um regime cuja
estabilidade eles consideram essencial para conduzir a China pelo
caminho tortuoso da reforma.
Ao mesmo tempo, eles reconhecem como foram
catastróficas aventuras de Mao como o Grande Salto Adiante do final dos
anos 1950 e a Revolução (anti-) Cultural de 1966 a 1976. Esses
experimentos sociais megalomaníacos custaram dezenas de milhões de
vidas.
Diferentemente de Stalin, Mao não sentenciou
ninguém diretamente à morte e certamente não tinha a intenção de
estabelecer a fome em seu país.
Mas ele sabia muito bem que ele estava
realizando imensos experimentos sociais que interfeririam nas vidas de
multidões – e ele próprio não sabia qual seria o resultado disso.
O líder chinês confessou isso à escritora
americana de esquerda Anna Louise Strong em 1958, quando ela estava
prestes a escrever um livro elogiando seu programa de coletivização do
campo e insdustrialização urbana, o Grande Salto Adiante.
"Espere outros cinco anos antes de escrevê-lo",
disse Mao a ela, explicando que ele não tinha certeza sobre o resultado
do experimento.
Revivendo o Maoismo
Mas estaria Xi Jinping revivendo o Maoismo? Ou
quem o estaria fazendo era Bo Xilai, o agora amaldiçoado ex-dirigente do
PC em Chongqing?
A resposta é não em ambos os casos.
"A
filosofia analítico-sintética de Mao é a real arma secreta da China,
embora ela seja muito negligenciada até mesmo na China atual."
Bo estava simplesmente usando slogans demagógicos sobre igualdade para tentar angariar o apoio dos pobres.
Quanto a Xi, as reformas que está propondo vão
na direção contrária à economia proposta por Mao – ainda que o atual
presidente faça uso da dialética maoísta para analisar os problemas
chineses e suas potenciais soluções, além de defender um reconhecimento
dos avanços positivos da liderança do "Grande Timoneiro".
Isso nos leva a uma reflexão interessante, quase
universalmente ignorada por acadêmicos do Ocidente - com algumas poucas
honrosas exceções, como Peter Nolan, da Universidade de Cambridge: a
filosofia analítico-sintética de Mao é a real arma secreta da China,
embora ela seja muito negligenciada até mesmo na China atual.
Para entender isso, veja o exemplo da situação que encontrei quando cheguei à China, em 1945.
Dois partidos rivais, os nacionalistas do
Kuomintang e os comunistas chineses, estavam preparando suas forças
armadas para disputar o poder em uma violenta guerra civil.
Do lado dos nacionalistas estavam soldados bem
alimentados e bem treinados com apoio aéreo, divisões de tanque,
artilharia pesada, transporte motorizado – e em um número muito maior do
que o de soldados comunistas.
Eles controlavam as principais linhas de
comunicação, todas as principais cidades fora da Manchúria (região no
nordeste da China). Gozavam de enorme apoio, na forma de armas e
dinheiro, dos EUA. Sua superioridade parecia absoluta.
E do lado dos comunistas? Em novembro de 1946,
eu andei 40 quilômetros a partir de Yanan para encontrar a 359ª brigada,
cujo comandane, Wang Zhen, era meu amigo.
A 359ª havia participado da lendária Grande
Marcha e havia construído uma via até a província de Guangdong, no sul,
para dar apoio à base aérea americana lá estabelecida durante a Segunda
Guerra.
Ao me encontrar com a brigada no momento em que ela seguia rumo a Yanan, fiquei espantado com o que vi.
Uns poucos em cada divisão usavam sapatos
remendados, mas a maioria seguia adiante usando sandálias que eles mesmo
haviam costurado. De cada dez homens em uma divisão, cinco ou seis
usavam fuzis japoneses que haviam apreendido no passado; o resto usava
clavas ou lanças.
Meu coração ficou apertado com o que eu vi: como poderiam vencer?
Ainda assim, eles venceram. Por quê? Por causa
de uma maneira superior e mais científica de se pensar, que levou à
adoção de políticas criativas e altamente populares (como a reforma
agrária) e a táticas versáteis que golpearam as tropas do Kuomintang.
Os princípios
Mao sempre descreveu a si mesmo para visitantes
como "um professor de escola primária". Ele era, de fato, provavelmente o
professor de filosofia com mais penetração na história humana. Entre
seus princípios fundamentais estavam:
- Buscar a verdade a partir dos fatos:
investigar e estudar dos fatos a partir de sua tarefa específica ou
localização, e basear suas políticas e ações nisso. Não comece nada a
partir de verdades pré-concebidas e colecione fatos que provem que você
está certo, negligenciando fatos que coloquem em dúvida suas conclusões;
- "O um se divide em dois":
Tudo tem muitos lados, tudo está em mudança, nada é puro e simples. Não
analisar, não testar, concluir como é um livro apenas por olhar a sua
capa é uma receita para a simplificação exagerada e para o desastre;
- O inimigo é muito mais numeroso e mais bem armado que você?
Então lute contra ele crescendo aos poucos, em situações locais em que
você supera os números dele, em que você tem uma vantagem – nunca lute
quando a vitória não é certa. Sua estratégia geral no início é
defensiva, mas a luta de cada indivíduo deve ser ofensiva, a fim de
equilibrar as forças e vencer a guerra;
- "Das massas e para as massas":
A equipe de liderança precisa ser como uma fábrica, processando dados,
carências e demandas do povo na base, formulando políticas para
satisfazer essas necessidades, voltando às bases para monitorar a
implementação de decisões e fazendo as revisões necessárias. Precisa
haver um contínuo processo "para baixo, para cima, para baixo" de
liderança. Restaurar esse processo tem sido um esforço-chave da equipe
de Xi Jinping.
Historiadores na China e no exterior continuarão
a estudar o papel de Mao por séculos, mas o povo chinês provavelmente
não irá deixar de lado essa figura de muitos talentos, com o bem e o mal que gerou.
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/12/131226_mao_filosofica120rg.shtml